Ainda em homenagem à consciência negra...
Navios negreiros não existem mais.
Em seu lugar, as periferias e favelas.
Chicote e açoites também não.
Em seu lugar, balas achadas e perdidas.
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas vermelhas o brilho,
em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
magras crianças, cujas bocas pretas
rega o sangue das mães:
Outras moças... mas nuas, espantadas,
no turbilhão de espectros arrastadas,
em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
ouvem-se gritos... e o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
a multidão faminta cambaleia,
e chora e dança ali.
Castro Alves, O Navio Negreiro.
De Gerivaldo Neiva
http://gerivaldoneiva.blogspot.com/2009/11/tombadilhos-periferias-e-favelas.html
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